ago 2nd, 2009
Dicas de filmes
Se você está planejando pegar um cinema no fim de semana, aqui vão duas dicas de filmes. Um deles é “Retrato de uma ausência” sobre a vida de Kurt Cobain e outro é “Bem-vindo”, sobre os sonhos de um jovem refugiado que tem como objetivos mudar de vida, bater uma bolinha na Inglaterra e encontrar seu grande amor. Nem que para isso seja preciso atravessar um oceano…a nado. Confira!
BEM-VINDO
(”Welcome” - França, 2008 / Direção: Philippe Lioret)
De quantas realidades se precisa para fazer uma ficção?
Nem um documentário ficcionado ou uma ficcção real. “Bem-vindo” é um dos filmes que marcam qualquer história de vida. Conta uma parte da trajetória de um refugiado do Iraque, mais um na lista dos que vão em busca de melhores condições de (sobre)vivência em países como a Inglaterra. No meio do caminho desta viagem, ele acaba ficando na França contemporânea, já sob a batuta de atual presidente Nicolas Sarkozy e como pano de fundo, um projeto de lei polêmico redigido pelo partido socialista e em voga há pouco tempo. O título do projeto? “Welcome” - que nada tem a ver com um real desejo de “boas-vindas” estampado num capacho à porta das casas ou menos ainda de quem espera sua visita de braços abertos. E sim um código que propôs a supressão do chamado “delito de solidariedade”. Segundo a reportagem do G1 sobre o filme, trata-se dos artigos L622-1 e L622-4 do Código de Entrada e Estadia de Estrangeiros, que penalizam com prisão de cinco anos e multa de 30 mil euros quem ajudar, transportar ou abrigar qualquer imigrante ilegal na França.
Além da triste realidade de atravessar fronteiras, estar em condições subumanas e nem sempre passar por elas sem marcas ou humilhações ou até mesmo com vida, como uma fuga desesperada para sair daquela situação e atravessar o oceano atrás de seu amor, Bilal (Firat Ayverdi), é mais um dos tantos a sofrer o preconceito de (boa) parte do comércio e população local e, sem perspectivas melhores, encontra nas aulas de natação da piscina de um clube a oportunidade de tentar chegar a Inglaterra atravessando o canal da Mancha a nado, que nada mais é do que praticamente 10 horas ineterruptadas de braçadas em águas geladas, repletas de navios gigantes em trânsito e muita fiscalização, tanto do lado francês como inglês.
Uma curiosidade que não vi destacada em nenhuma resenha sobre o filme foi a velha relação de amor ao esporte, o sonho de ser atleta e uma reviravolta nas situações através de uma atividade física. Sem preparo adequado, equipamento ou nenhuma experiência com provas de longa duração, Bilal conquista a solidariedade de seu professor Simon (Vincent Lindon), um quarentão em processo de separação e às voltas com uma quase (impossível) reconciliação com a ex-mulher, que torna-se amigo/cúmplice da empreitada. Lógico, também sofrendo todos os riscos de um cidadão comum ajudar um ilegal.
Nem um momento é fácil para aquele garoto de 17 anos que mesmo longe de casa, vive sob regras rígidas de seus costumes, mas na doçura de sua juventude, só sonhava chegar à Inglaterra para ser jogador do Manchester United, um dos mais tradicionais e queridos times ingleses, e sentiu na pele às consequências de não ser “de casa”, subjudado, marcado e fichado em terras estrangeiras.
O roteiro original de Olivier Adam e Emmanuel Courcol traz política transpirando e cutucando em cada cena.
Além dos três prêmios no Festival de Berlim 2009 - melhor filme europeu da mostra Panorama, faturou também os troféus do Júri Ecumênico e da Lable Europa Cinemas. Já estreiou aqui no Brasil há algumas semanas, mas continua em cartaz, pelo menos em SP e RJ. Verifique a programação na sua cidade e se for possível, não deixe de ver. “Bem-vindo” não pretende ser fofo, nem quer fazer acreditar que tudo acontece com um final feliz, até porque nem sempre a vida real costuma ser assim.
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KURT COBAIN - RETRATO DE UMA AUSÊNCIA
(”Kurt Cobain: about a son’ - EUA/2006 - Direção: A J Schnack)
25 horas de entrevistas de Kurt (vocalista do Nirvana) ao crítico musical americano Michael Azerrad ganha agora a sua versão cinematográfica e o diretor A J Schnack encarou o desafio de ilustrar essas entrevistas em aúdio, gravados durante o ano de 1992.
Não espere um filme ao estilo documentário sobre a trajetória da banda, momentos importantes da carreira, imagens de shows ou uma trilha sonora constante do Nirvana. “Retrato de uma ausência”, estreiou com atraso de uma semana (já que era previsto para ser lançado por aqui em 24/7), e chegou às telas nesta sexta em várias salas de SP e RJ - agora em circuito comercial, já que na edição da Mostra Internacional de Cinema de SP de 2007, ele foi um dos filmes escalados .
Michael Azerrad é o autor da biografia da banda, “Come as you are: A história do Nirvana” (que por um acaso também chegou por aqui) e em quase 1 hora e meia de filme, tem o objetivo de traduzir pelas palavras do próprio “personagem” pelo menos um pouco do que foi sua vida conturbada, cercada de drogas, de problemas psicológicos e familiares, além da inconstância e o talento incrível de transformar toda a dor e crises de existencialismo em música. Ou melhor, em bom e barulhento rock.
Sempre vale a pena recomendar para quem gosta de saber o que se passa na mente de um autor e o que o leva a produzir sua arte, mas o filme é essencialmente para fãs de kurt e para poderem entender um pouco de como ele agia e pensava e talvez justificar algumas letras e fatos que se perderam no caminho, onde a música e a carreira falou mais alto que a pessoa, separada do coletivo.
Desde 1994 muitos “órfãos” ainda procuram entender o que aconteceu e o que levou mais um jovem na síndrome dos 27 anos a cometer o suícidio. Além de boa parte da compilação das entrevistas, na tela, toda história é ilustrada com imagens onde Kurt morou e que são citadas no filme - Aberdeen, Olympia e Seattle - e pessoas, ruas, lugares, livrarias, paisagens, situando o espectador no universo do artista. Muito disso talvez aconteceu pelo fato de problemas de liberação e direitos de imagem que ainda é uma briga constante entre família (leia-se ex-esposa, courtney Love) e os outros integrantes da banda.
Na trilha, canções de David Bowie, Iggy Pop, Queen e R.E.M., entre outros cantores e bandas que influenciaram o estilo dele.
Se a pretensão não é desvendar ou explicar, ao menos deixa muito exposta a personalidade de um cara que tinha só a vontade de ser um artista, mostrar seu trabalho, ganhar seu dinheiro e seguir tão anônimo quanto qualquer mortal. Mas, mesmo sem querer, fazer uma revolução no rock dos anos 90, não daria para fazê-lo passar icógnito pela história da música e nem pela vida.
Veja aqui o trailer
Nada relacionado.








