Hangar 110/SP - 05/04/09
Esse último domingo foi um dia emblemático. Assim como outros inúmeros shows históricos naquele palco do Hangar. Daqui alguns anos quem esteve lá nesse 5 de abril de 2009 vai poder dizer que testemunhou um dos melhores momentos do hardcore da América do Sul.

Para comemorar os dez anos de banda e finalmente fazer um registro dessa trajetória, os argentinos do Nueva Ética escolheram esse mesmo palco para fazer a gravação de seu DVD. Esse show foi o último da mini-tour que também passou por Piracicaba/SP e Brasília/DF.
A banda já tinha conquistado seu devido lugar no HC mundial depois do lançamento do já clássico “Inquebrantable” de 2006 e se firmou com um dos maiores nomes do estilo, especialmente na Argentina e América do Sul, com o lançamento de “3L1T3″ que saiu em 2008. A edição brasileira foi lançada no início desse ano graças a parceria com o Seven Eight Live Records , selo que os representa no Brasil e encabeça esse projeto do DVD.
Um dos motivos do texto além de contar o que aconteceu lá, é também tentar entender um pouco como anda a cena Straight Edge ou do que vemos atualmente acontecer nos shows do estilo.
O público, apesar de em bom número, não lotou como era esperado. Mas representou no agito por todos que não puderam estar lá.
A primeira banda foi a Blood so Pure de Piracicaba, que fez um ótimo show e que levantou a galera desde os primeiros acordes, tendo como destaque a música “I Hope You Burn”, única disponível no myspace . Na sequência, o One True Reason, que segue com a divulgação do seu CD de estréia “Confessions”, lançado em 2007. Eles integram a The Goodfellas Tour junto com os também paulistanos do Corleone . Fizeram um show tenso, interrompido nas últimas músicas do set, (uma delas, a já famosa cover do Terror) por causa da violência e porradaria no circle pit. E tocaram também sem um dos guitarristas em praticamente todo o show devido ao trânsito da cidade que não alivia nos engarrafamentos nem nas tranquilas tardes de domingo.
A última antes da banda principal foi o StillxStrong. Apesar de ter apenas dois anos de formação já conquistou muitos méritos como abrir shows de bandas como No Turning Back, Have Heart e o próprio Nueva Ética em outras oportunidades. O show foi corrido e preocupante porque o vocalista Gabriel já entrou no palco se sentindo mal, mas mesmo assim conseguiu bravamente fazer todo o show e seguir, segundo informações, para o hospital assim que saiu do palco. A música de mesmo nome da banda foi sem dúvida o grande destaque, que também como é já de costume, é a que galera mais conhece, canta e agita.
Até então, apesar dos acalorados discursos de não-violência, do conceito família, hardcore e união, o choque estava violento, muita gente continuava caindo de cabeça no chão no mosh, porradaria geral e gratuita.
Sete câmeras em pontos estratégicos - três em cima do palco, duas no chão, uma no mezanino e também uma grua que atravessava quase toda a extensão do palco e do público - tudo pronto para não perder nada, passava uns minutos das oito da noite quando o Nueva Ética entrou no palco, ainda com tudo apagado e com “Intro” do já citado mais recente disco “3L1T3″ rolando. Galera insandecida e gritaria geral. Difícil para a maioria saber se seria mais vantagem ficar na roda ou tentar atravessar a muvuca e subir pro mosh. Mas certamente houve som suficiente para tudo isso. 
A cada música entoada e cantada como hino, a banda se sentia mais em casa, com o público que na verdade já é bem familiar e costuma acompanhá-los nos shows por aqui. E por isso a interação foi algo natural. Mas mesmo com tudo isso, o discurso do espírito hardcore, de não-violência veio à tona.
E cabe enfim uma pergunta: por que um público que em sua maioria segue a mesma ideologia da banda e do movimento que pregam como contracultura, a não-segregação, que usa o famoso X como emblema, e tem tantos ideais respeitáveis (se praticados como deveriam) se comporta tão mal e violentamente nos shows? Já falamos aqui de como é de dar vergonha ver como o público age nos shows de hardcore. O Athos fez até um manual sobre isso na ocasião do lançamento do Dead Fish no RJ. Será preciso agregar mais regras sobre isso nos shows de Straight Edge também?
Parece papo de tia velha mas é algo a se pensar. Por que então participar de um momento histórico de uma cultura que você não segue ou prega preceitos que não respeita? Virou troféu sair com hematomas ou machucados nas costas, nas canelas, isso sem falar quando sangue ou olhos roxos ou braços e pulsos deslocados ou quebrados não fazem parte do pacote.


Esse foi o cenário o que boa parte do público estampou para a gravação do DVD que nada mais do que agradecer a toda a fidelidade desse público que comparece e prestigia, é, segundo a própria banda mostrar para o mundo a força do hardore latino, sulamericano - como a música “Sudamerica” define muito bem. Daí inclui também algo de orgulho dessa parte da América que o Brasil parece esquecer fazer parte as vezes, mas isso é outra história.
No show, a banda mostrou o porquê é conhecida como “mosh machine” e porque seguem unidos depois de tanto tempo e mantendo com dignidade, atitude e muito peso sua trajetória de respeito. “Inquebrantable” que abre verdadeiramente o set, seguida por entre outras “La Familia Nunca Muere”, “Fiel”, “Declaracion de Guerra” e as mais atuais “El Tiempo es Agora” e a faixa título “3L1T3″.
No palco a banda era só gratidão e alegria, o tempo todo falando com a galera sobre o orgulho de estarem representando a América Latina e pedindo para a galera subir, moshar e fazer, enfim, parte da festa. E frizaram também que a galera pode baixar os sons pela Internet e curtir, mas já que um selo está trabalhando e lançando o CD aqui, é importante que as pessoas comprem e continuem movimentando esse ciclo ja que sem dinheiro as coisas param de acontecer: não tem show, não tem a banda e não tem DVD.
A previsão é que até o meio do ano o DVD, com produção da Datoro , seja lançado e quem viver, verá o que aconteceu lindamente naquele palco.
Até lá, esperamos que o público consiga parar para ouvir e entender o que seus ídolos dizem e parem de agir como radicais que vivem no segmento extremista criado por volta de 700 a.C. Se o Straight Edge tem história, não envergonhem o criador do movimento que nos anos 80 sonhava em mudar o mundo e deu nome para uma música que tinha o mesmo da sua banda e cantava: “O tempo é tão curto, esse tempo pertence a nós. Por que estão todos com pressa?”
Sejam felizes e sem violência. Valeu Nueva Ética! Fodasso!
Fotos por Felipe Ramalho
Edição das fotos Andreh Santos