
Há algum tempo atrás fiz um post em meu fotolog falando sobre os livros de rock. E Acaba de chegar da gráfica o livro Diário de Palco, do jornalista, Gustavo Pelogia. O que a princípio seria apenas um TCC, ou a famosa monografia de término de faculdade virou um livro repleto de depoimentos de pessoal que vivem a cena hardcore de São Paulo. O livro será lançado no próximo dia 17, em São Paulo, na livraria Pop.
Bati um papo com Pelogia e conversamos sobre o livro, a cena e sobre EMO. Confira abaixo a íntegra de nossa conversa.
Por que você decidiu escrever esse livro?
Foi meu TCC da faculdade. Na verdade o nome era “hardcore?”, mas percebi que ele não respondia essa questão e as bandas não estão preocupadas em ter esse rótulo, era mais uma questão minha de “entender” a cena.
E qual o seu envolvimento com a cena?
Meu envolvimento com a cena é o mais próximo possível. Tirando o Cuper e o Alemão, com todos os outros entrevistados eu pude ligar ou falar no msn e dizer “aqui é o Pelogia, estou escrevendo um livro sobre a cena” e marquei com eles. Eu acompanho a cena desde 2002, quando montei o AlternativoRock.com, que hoje não existe mais. Em 2007 vim para São Paulo (sou de Taubaté/SP), pude acompanhar tudo mais de perto, e foi isso que viabilizou a produção do livro.
O que era o alternativorock.com?
Era um site de notícias, como Vale Punk, Besouros, Zona Punk. Meu início do jornalismo com o hardcore se deu através dele. Mas eu saia pra gravar entrevistas e falar frente a frente com as pessoas, coisa que os outros sites raramente fazem.
E como e por que você escolheu esses entrevistados?
Procurei escolher gente de bandas e nichos diferentes. Tem músicos, dono de selo, dono de loja, de casa de show e imprensa. A seleção foi de pessoas que eu conheço e sei que tem história na cena. Não foi uma seleção super apurada, mas acho que ela ficou interessante. Tem diferentes facetas de pessoas que “vivem” no mesmo lugar.
Como você classifica o livro? Como um livro de contos, biográficos sobre essas pessoas, como que é?
Pra mim é uma coleção de perfis. Mas como eu digo no prefácio, é necessário levar em conta a data da entrevista (entre janeiro e outubro de 2008), pois algumas pessoas podem pensar ou estar em lugares diferentes hoje.
E depois que você escreveu o livro o seu pensamento sobre hardcore mudou?
Não. Eu só acho que as bandas precisam parar de ter medo do EMO. O Sandro e o Sonrisal falam um pouco sobre isso, mas não se incluem. O emo é uma parada dos anos 90, mas a mídia diz como se fosse só franjinha e criança chorando e como se tivesse nascido com o Nx Zero.
E o que é o EMO então?
O EMO é parte do hardcore, saca? Não do hardcore punk, mas é um braço do hardcore melódico. Se as bandas colocassem isso mais em evidência, não seria tão mal visto assim. Um dia eu fui trabalhar com a camisa da Fresno e putz. Eu entendi o que um EMO sofre.
Você acha que o próprio público ajuda que essa imagem seja feita dessa forma?
Sim, o EMO virou coisa de adolescente e a referência para eles é o que está na mídia. Não que seja ruim ter virado “coisa de adolescente” e tomado grandes proporções, mas o EMO é motivo de piada até dentro da cena, com as bandas. Porém, todas elas fazem uma baladinha, fazem alguma música mais EMO. Então elas deveriam assumir isso e contar quem são as referências. Boa parte dos músicos daqui provavelmente conhecem The Get Up Kids, Dashboard e um montão de bandas que eles chamam de EMO e ouvem. Por que é um problema assumir isso?
Você se considera um EMO?
Hoje não, mas eu já fui sim. Passava o dia ouvindo bandas EMO, usava sempre camiseta de bandas EMO, saia sempre de cinto de tachinhas. Isso era uma coisa muito sincera pra mim.
E por que não se considera mais?
Tem um amigo que diz que eu “sou da primeira geração dos EMOs de Taubaté”. E cara, numa boa: hoje mesmo eu joguei do CD para mp3 o primeiro cd da Fresno, que não ouvia tinha um tempão. Isso não me impede de adorar os Sex Pistols e o Dead Fish. E nem de passar o carnaval pulando marchinha. Porque descobri outras bandas e outros valores. Ainda ouço essas bandas EMO, com uma certa nostalgia daquele tempo, mas existem outros estilos que mexem comigo.
E tudo isso está refletido no livro?
Em partes, porque é claro que minha experiência na cena é base para fazer perguntas para os entrevistados. Mas não fala diretamente sobre mim, pois o livro é sobre outras pessoas.
Mas é um livro mais focado pro hardcore emocional, certo?
É um livro focado nestas pessoas. O Alemão fala sobre punk, o Fausto fala sobre sxe, o Fran é louco por Bad Religion. No meu ver, todos eles tem um pé no hardcore-punk, o que não os impede de falar sobre assuntos diversos. O Sonrisal fala sobre as faculdades que não terminou, o Alemão era dono de gráfica, o Felipe (Ideal) conheceu a Maria numa festa italiana. Eu acho genial conhecer esse lado das pessoas.
O lançamento vai ser só em São Paulo ou terá em outras cidades?
Por enquanto, vai ser só aqui. Tudo acontece no esquema “faça você mesmo” e com apoio das pessoas. Todo mundo que participou do livro, vai receber como pagamento um exemplar. Os fotógrafos cederam as fotos, as bandas vão tocar de graça, o equipamento de som é de um ex-chefe meu, que vai ficar lá trabalhando também.
Se alguém me chamar, é claro que quero ir pra outros lugares. Mas não sei como vai ser a recepção do livro, pois é o primeiro (que eu conheço) do hardcore que não fala e não foi escrito por uma banda especifica. Eu realmente espero que leiam daqui alguns anos e lembrem como era a cena hoje
E pra terminar, qual foi sua nota do TCC?
Foi péssima! haha tirei 8, enquanto a maioria do pessoal tava 9 pra cima. A (faculdade) Cásper é muito aberta com TCC, então tive o Gustavo Martins (jornalista/voz do Ecos Falsos) e o Marcelo Viegas (cientista político, jornalista e velho da cena) na banca avaliadora. Eles reclamaram do português e estavam muito certos. Tenho um grande problema com acentos e agora até no MSN eu fico com um dicionário do lado.

Serviço:
Lançamento do Livro Diário de Palco
Dia 17/03 (terça-feira), 18h
Livraria Pop - R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297
Entrada - Grátis
Exposição de fotos - Luringa e Mauricio Santana
Shows acústicos - Niper (Pull Down), Otávio Cavalheiro (ex-Falante) e Natashha
http://www.diariodepalco.com.br